Visita Nyusi TICs

Jovens e plataformas digitais no espaço político em Moçambique: uma relação em vagarosa metamorfose?

Ao longo do mês de Agosto assistimos dois episódios que mereceram a nossa particular atenção. Referimo-nos a realização de eventos que tiveram nas tecnologias de informação e comunicação o seu campo de acção.

Um dos eventos aconteceu no dia 21 de Agosto, quando o Presidente da República, Filipe Nyusi, ao fim da visita realizada na Cidade de Maputo, proferiu uma comunicação sobre ‘’o papel das tecnologias de informação e comunicação para o desenvolvimento de Moçambique’’, onde disse (sic erat scriptum):

‘’(…) Nesse contexto, temos o orgulho de ver iniciativas de jovens e investidores que promovem debates televisivos de grande excelência sobre as TICS…Estamos igualmente conscientes ao lado negativo das TICs, nomeadamente o crime cibernético, a desinformação e a divulgação de notícias falsas. O Governo fará tudo que está ao seu alcance para combater estes males, mas nunca vamos deixar de desenvolver as TICs por estas razões (…)’’.

Importa igualmente destacar que desde a retoma das visitas às províncias, o Presidente da República faz questão de transmitir (em directo) os discursos de fecho a partir da sua página Facebook.

Porém, antes da intervenção do Presidente da República a 21 de Agosto, o partido Frelimo organizou um evento virtual na plataforma Zoom, no dia 18 de Agosto, através do seu braço juvenil OJM, onde procurava discutir sobre ‘’juventude e o papel das plataformas digitais na consolidação da unidade e estabilidade nacional’’.

Tivemos a oportunidade de participar do evento respectivo na qualidade de espectadores, e os jovens filiados ao partido Frelimo colocaram a hipótese urgente de redefinição social e política sobre o uso das plataformas digitais por parte dos jovens. Igualmente, referiram ser urgente (re)introduzir os valores do patriotismo nacional de acordo com o que a história de Moçambique e da Frelimo ensinou, bem como demandaram maior responsabilidade individual dos usuários de tais plataformas.

Uma das premissas iniciais que podem ser constatadas dos eventos acima descritos é o facto de ambos sucederem no mês em que celebra-se o ‘’Dia Internacional da Juventude’’ (n.d.r 12 de Agosto), o que pode revelar interesse particular em associar os jovens enquanto usuários primários das plataformas digitais para exercício da sua participação social e política. Aliás, numa intervenção que realizou ainda no dia 21, o Presidente de República juntou-se com um colectivo de jovens empreendedores, tendo dito ‘’(…) eu sei que a ideia inicial era conversarmos no dia 12, mas para mim todos os dias são dias de jovens. É um país jovem. É um país para jovens. Jovens que são o futuro de amanhã a partir de hoje…’’.

Porém, ao mesmo tempo que verifica-se uma aparente mudança em abordar o papel das plataformas digitais no espaço social e político em Moçambique, prevalece um espectro de resistência à mudança não manifesta, uma realidade que pode revelar que, apesar da ‘’metamorfose’’ dos espaços de participação social e política, o reconhecimento da sua valência é feito de forma lenta ou quase camuflada.

Hipoteticamente, podemos colocar a possibilidade da prevalência de um pensamento segundo o qual a opinião contrária espelhada nas plataformas digitais deve (sempre) condizer com o discurso de quem governa, sendo que pensamento contrário não pode ser tido como válido, uma realidade que pode decorrer da difícil e complexa relação entre a conquista dos direitos político-sociais e o papel central do Estado na construção de um modelo de ‘’cidadania regulada’’, na lógica do que fora discutido por Wanderley Guilherme dos Santos (1979).

Diríamos, em outras palavras, que estamos diante da incapacidade moçambicana em conciliar estabilidade política, consolidação democrática e ampliação da cidadania que é actualmente oferecida pelas redes sociais da Internet.

Um debate por continuar…